segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a primeira morte (ou a paixão segundo Herberto Helder)

cal
despida de qualquer paisagem,
velando corpos
com a obscuridade
de bocas abotoadas,
no silêncio seminal dos casulos.

línguas
e unhas trêmulas
a romper a casca.

-quase libélulas-

mamilos já conhecidos,
nos corredores
da casa tomada,
no grande canyon
de grandes lábios furiosos.

a primeira morte,
espáduas aveludadas, quase cicatrizes.
o tempo acelerado,
diafragmático,
longínquo esquecimento
a tatear,
uma pausa de orquestra,
um cheiro de chuva,
uma chama de vela.

a primeira morte
suplanta corredores,
descansa em lençóis sujos,
em carpetes,
na tarde silenciosa
que conspira,
com todas as rugas do casario.

a primeira morte
rompe o ventre
de dunas, de anjos,
demônios de origami.
teu umbigo
é o centro da vertigem adolescente.

a primeira morte é definitiva.

-teu sexo
se avizinha,
espectro de enciclopédias-

mas o real
dos homens,
do casario,
das sentinelas,
fervem a mínima entranha do desconsolo,
interdita destinos de precipícios.

é tempo de guardar os livros
de feroz noite,
recolhendo arpões,
tangendo estrelas.

a primeira morte...

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