sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vidas Secas Reloaded - argumento

"Eu te amo, porra!". era difícil não ouvir, ali do lado, na praça. no Paraíso. ELE puxou-a pelos ombros. ELA se desvencilhando. Ele repetiu com a voz trôpega, espessa, as sílabas tortas como seus passos. "Eu te amo, porra!" Os dois ali na praça, mal se mantendo em pé. A carroça, esqueleto do que foi um dia uma geladeira, encostada, cheia de papelão, quinquilharias,carcaças, vasilhames inertes. os filhos brincando perto, descalços, barrigudos. Amarrado à carroça, o cachorro assiste a tudo, impassível, com uma corda improvisada no pescoço. Sentado nas patas traseiras, parece que cochila. Não era a primeira vez que presenciava uma discussão de relação. Solidário. Conivente. ELE com o rosto vermelho, inchado, a pele coberta com aquela casca de fuligem negra da cidade, cicatriz no supercílio, vasto repertório de brigas e idas ao pronto socorro. A boca mole de alguns dentes. ELA na mesma cor e indulgência., no mesmo inchaço, os peitos murchos, uma cicatriz tosca no braço, o vestido sem esquadro que lhe serve de moldura. Inevitável a compração com Fabiano e sua troupe. Só lhes falta o papagaio. Se atracam a céu aberto, diante da indiferença de pernas e buzinas. declarações de amor de tempo incerto. Não há passado nem futuro que os consolem. Só a embriaguez do presente indecifrável. Com que sonham? Dormem? Uma cama macia? Um pasto verde com cabras? Fazem amor sob os papelões? Amanhã ELE dá um jeito nos policiais que andam enxotando a família. Nos vagabundos que aprontam de madrugada. ELE diz que a ama, e é a única verdade sob o céu que escurece. Os trovões silenciam suas palavras. Sob as árvores se juntam feitos bichos. Sob a tempestade, o silêncio. E quando chega a madrugada, ainda restando um naco de consciência, tal qual Fabiano, engole seco seus pensamentos: "Eu sou um bicho!. Um bicho!". O mundo continua a girar na cidade iluminada, nas redes sociais, nas rotativas dos jornais e na solidão da praça.

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